Riscos do Preenchimento

O preenchimento é um procedimento médico. Apesar de aparentemente simples ele requer uma série de cuidados para que possa oferecer uma aparência natural com segurança.

Entre as condições básicas para realização do preenchimento estão a formação em medicina, não podendo ser realizado por nenhum outro profissional, profundo conhecimento da técnica, local com condições ideais de higiene atestadas por alvará da vigilância sanitária e produtos aprovados pela Anvisa.

Em outras palavras, de maneira geral, devemos estar atentos a três fatores: profissional, ambiente e produto.

Tecnicamente, o sucesso do preenchimento depende de uma série de fatores, como objetivo (ganho de quantidade ou tratamento da flacidez), região de aplicação (lábio, queixo, gúteos), concentração (PMMA 10%, 20% ou 30%), plano de aplicação (intradémico, justadérmico, subcutâneo, intramuscular, submuscular) e quantidade a ser aplicada. Escolhas erradas do médico na parte prática do procedimento podem levar a uma aparência artificial e migração do produto para outros locais do corpo.

A substância preenchedora deve ser obrigatoriamente aprovada pela Anvisa (Agência Nacional de Vigilância Sanitária), órgão responsável pela legalização dos produtos médicos utilizados no Brasil. Existem quatro tipos principais de substâncias preenchedoras: ácido hialurônico, polimetilmetacrilato (PMMA), hidroxiapatita de cálcio e ácido polilático. Cada uma delas pode ser fabricada por diferentes laboratórios e receber o nome de diferentes marcas. No entanto, apenas alguns desses fabricantes, laboratórios e marcas possuem liberação da Anvisa e podem ser comercializados legalmente no Brasil.

O paciente deve buscar saber se a clínica onde o preenchimento será realizado utiliza substâncias preenchedoras legalizadas, bem como conferir lote e validade dos produtos. Uma rápida pesquisa na internet pode ajudar a descobrir se a marca utilizada é aprovada pela Anvisa. Lembrando que nenhum produto manipulado, sem marca, tem sua comercialização autorizada pela vigilância sanitária. Além disso, existem algumas substâncias terminantemente proibidas, como o hidrogel e o silicone líquido. Em função do menor custo o silicone líquido muitas vezes é vendido como PMMA. O silicone líquido é incolor e não apresenta lote e validade impressos em cada seringa, enquanto o PMMA é branco e disponibilizado em seringas de 3 ml. Essas são as principais características que precisam ser conferidas antes da aplicação.

A utilização de microcânulas para distribuição do preenchimento é outro ponto importante. Microcânulas são agulhas sem ponta utilizadas para implantar o produto embaixo da pele uniformemente, sem causar lesões em vasos e nervos, reduzindo hematomas. O preenchimento com microcânula evita perfurar e depositar a substância preenchedora no sistema circulatório, o que poderia causar sua obstrução e consequente necrose. Dentro do sistema circulatório, a substância preenchedora pode ainda ser transportada para dentro de órgãos, prejudicando seu funcionamento. Através de um pequeno pertuito feito com agulha comum a microcânula é inserida na pele para distribuir o preenchedor. O acesso criado produz um sangramento desprezível e de maneira similar a uma injeção, não deixa cicatriz.

Quanto ao ambiente, é necessário realizar o preenchimento em local com condições ideais de higiene atestadas por alvará da vigilância sanitária. O preenchimento não pode ser realizado na casa do paciente. Antes do procedimento o paciente deve passar por uma consulta médica presencial, que é obrigatória segundo a resolução n° 1.974/2011 do conselho federal de medicina. Somente após avaliação do aspecto físico e do histórico clínico do paciente, o médico poderá indicar ou não o preenchimento. Caso a doutora considere o paciente apto e os horários sejam compatíveis, o procedimento pode ser realizado no mesmo dia, no próprio consultório.

Além do conhecimento técnico citado anteriormente é importante que o médico tenha bom senso estético. O preenchimento é uma técnica que pode ser realizada de inúmeras maneiras e cabe ao médico visualizar e indicar as melhores possibilidades para cada caso. Um exemplo é a associação de procedimentos como aumento na quantidade de queixo e preenchimento da mandíbula, que juntos proporcionam maior harmonia facial. De forma semelhante, a maleabilidade dos implantes líquidos precisa ser bem aproveitada no aumento de glúteos, pois é ela que permitirá uma aparência mais natural de acordo com as linhas individuais do corpo de cada paciente.

AS PRINCIPAIS COMPLICAÇÕES E RISCOS DO PREENCHIMENTO SÃO:

Nódulos: aglomerados de produto que formam pequenas saliências na pele e que são facilmente evitados se o médico souber distribuir bem a substância preenchedora. A ponta cega e a flexibilidade da microcânula, bem como a sensibilidade manual para dosar a quantidade de produto a ser dispensada gradualmente.

Granuloma: reação do sistema imunológico a presença de elementos estranhos no organismo com o propósito de envolver e expelir essas partículas. O tamanho das microesferas de PMMA, que devem ter entre 30 e 50µm (micrometro, a milionésima parte do metro); bem como a regularidade da sua superfície, que deve ser lisa; impedem que o sistema de defesa consiga envolver as partículas de PMMA formando granulomas.

Necrose: a injeção acidental de substâncias preenchedoras no sistema circulatório provoca interrupção da nutrição celular e consequente morte do tecido. A ponta romba da microcânula reduz a possibilidade de perfuração de vasos e veias diminuindo a chance de aplicação inadvertida de preenchimento dentro do duto, bloqueio do fluxo sanguíneo e consequente necrose.

Edema tardio: a formação imediata de um leve edema é normal devido a inflamação ocasionada pela agressão à pele e em função da propriedade da maioria dos produtos de atrair água. O edema ainda pode ser agravado pelo número de injeções necessárias para preencher grandes áreas. A utilização de microcânulas mais longas aumenta o alcance a partir de um único ponto, reduzindo o número de injeções. Por sua vez, o edema tardio, na maioria das vezes é resultado de um erro médico de posicionamento do produto, como injeção superficial da substância preenchedora. Daí a importância do conhecimento médico no momento da realização do preenchimento.

Infecção: normalmente ocorre devido à contaminação do produto ou falta de assepsia durante posterior ao procedimento. Apesar de não haver cortes, o pequeno pertuito realizado para introduzir a microcânula pode ser um canal de entrada para microorganismos e facilitar a infecção. Por isso a importância do procedimento ser realizado em local com condições ideais de higiene atestadas por alvará da vigilância sanitária. A preparação do paciente pela equipe médica deve incluir a limpeza do local, assim como o próprio paciente deve manter a região livre de impurezas até a completa cicatrização. A pureza do veículo utilizado para transportar as microesferas de PMMA, geralmente composto de carboximetilcelulose, é uma das principais características na escolha da marca do implante, justamente em função de poder conter impurezas que levem à infecção.

Seroma: a região afetada pelo preenchimento pode sofrer o acúmulo de um líquido formado por plasma, linfa e soro fisiológico. No entanto, a formação de seroma pode ser percebida mais facilmente em grandes cirurgias, como abdominoplastia ou lipoaspiração. Em preenchimentos o fenômeno só ocorre nos pacientes com tendência a formação de quelóide ou de cicatrização hipertrófica, sendo recomendado informar ao médico esta condição para que ele tome as providências necessárias.

Alergia: incompatibilidade com algum dos componentes da fórmula, que favorece o surgimento de edema, eritema e hiperemia. É importante informar ao médico durante a consulta presencial qualquer tipo de alergia, incluindo anti-inflamatórios, corticoide, ácido acetilsalicílico, entre outros.

Migração: O PMMA não migra pois é injetado em planos profundos onde fica menos suscetível às movimentações musculares e aos próprios efeitos da gravidade, que poderiam gerar deslocamento do produto. Além disso, quando injetado no corpo, o veículo utilizado para transportar as microesferas através da microcânula, passa a ter a função de manter o posicionamento das partículas tal qual elas foram distribuídas pelo médico, utilizando a resistência de sua propriedade viscosa para sustentar o arranjo dos polímeros. O veículo é uma substância biologicamente compatível absorvida pelo corpo enquanto cada uma das microesferas é envolvida por um novo tecido conjuntivo, o que fixa o PMMA no local implantado definitivamente.

Rejeição: a rejeição acontece quando o organismo identifica o implante como potencial ameaça e ativa o sistema de defesa para proteger o corpo. Os linfócitos buscarão englobar e expelir as microesferas, no entanto, produtos aprovados pela Anvisa possuem partículas com diâmetros de 30 a 50µm e superfície lisa, o que impossibilita a ação dos glóbulos brancos. Estes produtos também possuem veículo de alta pureza, o que diminui as chances de rejeição por infecção. As demais substâncias preenchedoras podem ocasionar reações alérgicas mas dificilmente rejeição, uma vez que são materiais absorvíveis compatíveis com o organismo.

Conforme pesquisa divulgada durante o 1° Simpósio Consenso Brasileiro de Implantes Infiltrativos PMMA em 2016, que analisou mais de 85 mil casos de implantação do produto realizados por 36 médicos de todo o Brasil, o índice de complicações do preenchimento com polimetilmetacrilato é de 0,823%. Históricos de complicações com outros preenchedores são raros por serem substâncias absorvíveis, quando acontecem, são transitórias.

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